Garrafas ao mar
por
Fritz Utzeri
Publicado no Jornal do Brasil em 28 de
abril de 2002.
Vejo uma garrafa
na areia e pego-a. Abro-a e, finalmente, tenho uma primeira resposta!
Ciro Gomes, da Frente Trabalhista. Espero que outras garrafas cheguem.
Ainda faltam pelo menos três. No tom didático que o caracteriza, o
candidato considera a erradicação da miséria possível em uma geração
e detalha as políticas públicas que tornariam isso viável. Transcrevo
o texto, sem qualquer comentário (nem haveria espaço para fazê-lo
agora), mas peço que os (e)leitores se manifestem. O que vocês acham
das propostas do Ciro para erradicar a miséria?
Nosso objetivo
é debater questões políticas. Discutir seriamente o futuro de nosso
país. Confrontar para escolher. Guardar por escrito as propostas do
candidato para compará-las com a prática presidencial, caso acabe
vitorioso em outubro. Guardar para cobrar. O jogo das alianças e composições,
as futricas da corte e dizer que o e-mail de Ciro homenageia Patrícia
Pilar são irrelevâncias. Importantes são as questões que levanta,
desde sua visão dos problemas da educação, do emprego, da submissão
às agências internacionais, da política industrial, de salários, de
recuperação da infra-estrutura, da seguridade social e do emprego.
As perguntas
das garrafas continuam valendo: ''O senhor considera possível erradicar
a miséria no Brasil no espaço de uma geração? Em caso positivo, como
o seu governo pretende começar o processo e como a sociedade poderá
participar dele? Que políticas públicas deverão ser prioritárias?''
Com vocês a primeira
garrafa. A palavra do candidato Ciro Gomes:
''Apesar de seu
leitor assíduo, só hoje recolhi uma de suas garrafas com as perguntas
sobre a erradicação da miséria no Brasil. Tenho convicção de que é
perfeitamente possível erradicar a miséria em nosso país num prazo
de 20 a 30 anos ou até menos, se nos pusermos a executar continuadamente,
e de forma planejada, um conjunto articulado de providências nas áreas
econômico-financeira, de infra-estrutura e nas políticas públicas.
O que distribui renda efetivamente é educação continuada, emprego,
salário, empreendedorismo e acesso à terra. Políticas sociais compensatórias
(moda neoliberal adotada pela retórica de esquerda no Brasil) cumprem
apenas um papel coadjuvante e transitório.
Na educação,
por exemplo, tenho estudos que evidenciam que ao atingir uma escolarização
de oito anos a pessoa (sempre em média, claro) salta de uma renda
amarrada ao salário mínimo para um patamar superior a três. A atual
média de escolarização no Brasil é inferior a seis anos e, pior, com
um paradigma pedagógico anacrônico e de precaríssima qualidade (salvo
as honrosas exceções). O foco de meu projeto aqui é ampliar o apoio
federal ao Fundef para ampliar maciçamente a pré-escola e a expansão
do segundo grau, dado que já temos vagas suficientes no primeiro grau.
Para este, especialmente, pretendemos criar um fundo de complementação
salarial, acessível mediante a adesão voluntária do professorado vinculado
aos Estados e municípios a um programa de reciclagem, retreinamento
e avaliação.
Para a universidade,
que advogo pública e gratuita, um projeto de autonomia, com status
para a celebração de projetos pedagógicos que definam (por elas próprias)
sua tarefa junto à comunidade ao seu entorno, inclusive, quando desejarem,
produzindo e vendendo soluções para o setor público, empresarial e/ou
comunitário. O Tesouro Nacional garantirá o seu financiamento estabelecendo
valores per capita e adicionais por pesquisa e extensão.
A solução estrutural
para o problema do emprego está vinculada naturalmente a toda a engenharia
macroeconômica que critico no atual modelo e às soluções que estou
defendendo (refundação da estrutura tributária e previdenciária, superação
do déficit externo, alongamento do perfil da dívida interna). O norte
é a elevação do nível da poupança interna (pública e privada nacional)
e estímulo à vinculação dessa poupança ao investimento produtivo.
A conseqüência é a redução dos juros. É inevitável o economês mas
a lógica é simples: só há emprego se houver crescimento econômico,
só há crescimento se houver investimento, só há investimento se houver
poupança. E a poupança é de três fontes: pública, privada nacional
e estrangeira.
Hoje as coisas
estão assim no Brasil: a poupança pública é negativa (gasto muito
maior que receita, por causa do serviço - juros - da dívida pública,
que explodiu nos últimos anos). Anos a fio de estagnação reduziram
a poupança privada a números ínfimos e, por causa do rombo nas contas
públicas, esse resto de poupança está drenado da produção para a especulação
financeira. E a sociedade brasileira inteira sendo levada no bico
de que seremos salvos da tragédia pela poupança estrangeira, o que
tem causado não só uma brutal desnacionalização de nossa economia
como tem nos deixado de joelhos e vulneráveis a qualquer ciclo especulativo
internacional, como esse que destruiu a Argentina. Além de nos obrigar
à cartilha do ''bom moço internacional'' - leia-se ao fiel cumprimento
da agenda neoliberal de Washington, diligentemente vigiada entre nós
pela vassalagem de nossas autoridades à agenda arrasadora do FMI.
Detalhes no nosso site http://www.ciro23.com.br .
Fritz, permita-me
dizer-lhe, este é o ponto central do debate interditado!
Substituição
de importações na indústria e serviços, reforma agrária com política
agrícola, construção civil, turismo, diplomacia comercial mais agressiva
para remover restrições às nossas exportações, compras governamentais,
recuperação da infra-estrutura pública arrasada (estradas, energia,
portos, por exemplo), moradia popular, saneamento básico e urbanização
de favelas. São focos onde há oportunidades extraordinárias de geração
de emprego factíveis com recursos institucionais, alguns, ou financeiros
moderados, outros.
Nos salários,
deixe que lhe diga, a participação deles na renda nacional não é uma
fatalidade, como se pode pensar, e sim conseqüência de arranjos institucionais
que a política faz ou deixa de fazer. Países muito mais pobres que
o Brasil têm uma massa salarial muito maior que a brasileira. No Brasil
os salários participam com exíguos 23% no agregado industrial, enquanto
na Bolívia passam de 35% e na Alemanha passam de 54%! E não consta
que a Alemanha esteja perdendo a competição mundial por isso.
A diretriz aqui
é uma política de salário mínimo mais agressiva (possível no ambiente
de uma reforma da Previdência e de uma reforma do sistema tributário
já comentadas). Segue-se o aperfeiçoamento de legislação, de minha
iniciativa quando ministro da Fazenda, de participação dos trabalhadores
nos resultados e lucros das empresas; e avança na direção de uma nova
ordem social do trabalho que incremente o poder dos sindicatos e estenda
suas conquistas aos trabalhadores desorganizados e não sindicalizados.
Providências
ainda precisamos tomar para eliminar ao máximo a informalidade (transitar
gradualmente a base de incidência do financiamento da Previdência
da folha de pagamento onde está para o faturamento líquido das empresas,
começando pelos setores robotizados e automatizados de nossa base
produtiva). O modelo tributário integrado ao projeto transita gradualmente
da produção para o consumo e para os ganhos de capital das classes
altas a base de incidência dos impostos.
Ufa! Tinha muita
coisa mais para falar, especialmente porque o debate anda muito pobre
e concentrado em fofocas e você é dos raros que provocam os candidatos
a discutir o que realmente interessa. Demorei um pouco a responder
porque quis fazê-lo pessoalmente e não através de assessores. E aí,
só nas pontas de madrugada. Um abraço e sigo às ordens para esclarecer
detalhes e certamente omissões. Cordialmente, Ciro Gomes.''